📌 Resumo teórico
Teorema dos valores intermédios (Bolzano-Cauchy)
Se \(f\) é contínua em \(\left[a,\,b\right]\) e \(k\) é um número entre \(f(a)\) e \(f(b)\), então existe pelo menos um \(c\in\left]a,\,b\right[\) tal que \(f(c)=k\).
Por outras palavras: uma função contínua num intervalo não salta valores — para passar de \(f(a)\) a \(f(b)\) tem de tomar todos os valores intermédios.
Corolário — o caso dos zeros
Se \(f\) é contínua em \(\left[a,\,b\right]\) e \(f(a)\times f(b)\lt 0\) (isto é, \(f(a)\) e \(f(b)\) têm sinais contrários), então \(f\) tem pelo menos um zero em \(\left]a,\,b\right[\).
É o caso particular \(k=0\): se um dos valores é negativo e o outro positivo, o \(0\) está entre eles.
Como se escreve uma resolução
| Passo | O que se escreve |
|---|---|
| 1. Continuidade | justificar que \(f\) é contínua em \(\left[a,\,b\right]\) — por ser polinomial, racional, exponencial, logarítmica, trigonométrica, ou soma/produto/quociente/composta destas |
| 2. Os dois valores | calcular \(f(a)\) e \(f(b)\) e mostrar que \(k\) está entre eles |
| 3. Conclusão | «Pelo teorema dos valores intermédios (Bolzano-Cauchy), existe pelo menos um \(c\in\left]a,\,b\right[\) tal que \(f(c)=k\).» |
Unicidade — o que o teorema não dá
Bolzano-Cauchy garante existência, nunca unicidade. Para mostrar que a solução é única, junta-se um argumento de monotonia: se \(f'\gt 0\) (ou \(f'\lt 0\)) no intervalo, então \(f\) é estritamente monótona, logo injetiva, e não pode tomar o mesmo valor duas vezes.
Traduzir o problema numa função auxiliar
Muitos enunciados não falam de zeros. Traduzem-se assim, definindo uma função auxiliar contínua:
| Enunciado | Função auxiliar |
|---|---|
| \(f(x)=k\) tem solução | \(h(x)=f(x)-k\), procurar um zero |
| os gráficos de \(f\) e \(g\) intersetam-se | \(h(x)=f(x)-g(x)\), procurar um zero |
| o gráfico interseta a reta \(y=mx\) | \(h(x)=f(x)-mx\), procurar um zero |
| duas retas são perpendiculares | \(h(x)=m_1(x)\times m_2(x)+1\), procurar um zero |
Cuidados: (1) a continuidade tem de ser verificada em todo o intervalo fechado \(\left[a,\,b\right]\) — basta um ponto fora do domínio para o teorema não se poder aplicar; (2) as desigualdades devem ser estritas se se quiser a solução no intervalo aberto; (3) o teorema não diz onde está o \(c\), nem quantos há.
Nota (Aprendizagens Essenciais, janeiro de 2023): o teorema dos valores intermédios (Bolzano-Cauchy) surge no tema «Resolução aproximada de equações», ao lado do método da Bisseção e do método de Newton-Raphson. As AE indicam que se deve «considerar o teorema dos valores intermédios para funções contínuas em intervalos abertos que contenham o intervalo fechado onde se estudam os valores intermédios».
1. Equação \(f(x)=f(0)\) num intervalo
Considere a função \(f\) de domínio \(\mathbb{R}\setminus\{-1\}\) definida por:
Mostre, sem recorrer à calculadora, a não ser para eventuais cálculos numéricos, que a equação \(f(x)=f(0)\) é possível no intervalo \(\left]2,\,3\right[\).
A equação a estudar é, portanto, \(f(x)=1\) — procura-se o valor intermédio \(k=1\).
Passo 2 — continuidade em \(\left[2,\,3\right]\)\(f\) é a soma da função polinomial \(1-x\) com a composta \(\ln u\), sendo \(u=(x+1)^{2}\). O logaritmo exige \((x+1)^{2}\gt 0\), ou seja, \(x\ne -1\) — daí o domínio dado.
Como \(-1\notin\left[2,\,3\right]\), tem-se \(\left[2,\,3\right]\subset D_f\) e \(f\) é contínua em \(\left[2,\,3\right]\), por ser soma e composta de funções contínuas.
Passo 3 — os valores nos extremosComparando com \(k=f(0)=1\):
ou seja, \(f(0)\) é um valor estritamente compreendido entre \(f(3)\) e \(f(2)\).
Sendo \(f\) contínua em \(\left[2,\,3\right]\) e estando \(f(0)=1\) entre \(f(2)\) e \(f(3)\), o teorema dos valores intermédios (Bolzano-Cauchy) garante que existe pelo menos um \(c\in\left]2,\,3\right[\) tal que \(f(c)=1=f(0)\).
A equação \(f(x)=f(0)\) é possível em \(\left]2,\,3\right[\). \(\blacksquare\)
(Com a calculadora, a solução é \(c\approx 2{,}51\) — mas o teorema não a dá, apenas garante que existe.)
2. Existência e unicidade de um zero
Considere a função \(f\), de domínio \(\mathbb{R}\), definida por:
- 2.1. Mostre que \(f\) admite pelo menos um zero no intervalo \(\left]-1,\,0\right[\).
- 2.2. Mostre que o zero, cuja existência provou, é o único zero de \(f\).
\(f\) é a soma da função exponencial composta \(e^{2x}\) com a função polinomial \(x\), ambas contínuas em \(\mathbb{R}\). Logo \(f\) é contínua em \(\mathbb{R}\) e, em particular, em \(\left[-1,\,0\right]\).
2.1. — os valores nos extremosSendo \(f\) contínua em \(\left[-1,\,0\right]\) e tendo \(f(-1)\) e \(f(0)\) sinais contrários, o corolário do teorema dos valores intermédios garante que:
O teorema de Bolzano-Cauchy dá existência, nunca unicidade. Para a unicidade mostra-se que \(f\) é estritamente monótona em todo o \(\mathbb{R}\): uma função estritamente monótona é injetiva e, por isso, não pode tomar o valor \(0\) mais do que uma vez.
2.2. — a derivadaCom \(\left(e^{u}\right)'=u'e^{u}\), sendo \(u=2x\) e \(u'=2\):
Para todo o \(x\in\mathbb{R}\) tem-se \(e^{2x}\gt 0\), logo \(2e^{2x}\gt 0\) e:
Sendo a derivada positiva em todo o \(\mathbb{R}\), \(f\) é estritamente crescente em \(\mathbb{R}\) e, portanto, injetiva. Se existissem dois zeros \(c_1\ne c_2\), ter-se-ia \(f(c_1)=f(c_2)=0\), o que contraria a injetividade.
De outro modo, sem derivadas: \(x\mapsto e^{2x}\) é estritamente crescente (exponencial de base \(e\gt 1\) composta com \(2x\), crescente) e \(x\mapsto x\) também. A soma de duas funções estritamente crescentes é estritamente crescente.
\(f\) tem exatamente um zero, que pertence a \(\left]-1,\,0\right[\). \(\blacksquare\)
(Com a calculadora, esse zero é \(\approx -0{,}43\).)
3. Determinar \(k\) para poder aplicar o teorema
Sejam \(f\) e \(g\) as funções, de domínio \(\mathbb{R}\), definidas por:
Determine o valor de \(k\) para o qual se possa garantir, pelo teorema dos valores intermédios, que o gráfico da função \(f\) interseta o gráfico da função \(g\) num ponto cuja abcissa pertence ao intervalo \(\left]0,\,2\right[\).
Pretende-se aplicar o teorema à função auxiliar
no intervalo \(\left[0,\,2\right]\): um zero de \(h\) é um ponto onde os dois gráficos se intersetam. Ora o teorema exige continuidade em todo o intervalo. Nos ramos \(x\lt 1\) e \(x\gt 1\) a função \(f\) é contínua (quociente e soma de funções contínuas, com denominadores não nulos). O único ponto a garantir é \(x=1\).
É esta a condição que determina \(k\).
Passo 2 — limite à esquerda de \(1\)Fazendo a mudança de variável \(t=1-x\), com \(t\to 0^{+}\) quando \(x\to 1^{-}\), vem \(x-1=-t\):
usando o limite notável \(\displaystyle\lim_{t\to 0}\frac{e^{t}-1}{t}=1\).
Passo 3 — limite à direita e valor em \(1\)\(f\) é contínua em \(x=1\) se e só se os dois limites laterais e a imagem coincidirem:
e \(k=1\) verifica também a outra igualdade (\(k=1\)). As duas condições dão o mesmo valor.
Com \(k=1\), \(f\) é contínua em \(\mathbb{R}\) e \(g\) é polinomial, logo \(h=f-g\) é contínua em \(\left[0,\,2\right]\). Nos extremos:
Como \(h\) é contínua em \(\left[0,\,2\right]\) e \(h(0)\gt 0\gt h(2)\), o teorema garante que existe \(c\in\left]0,\,2\right[\) com \(h(c)=0\), isto é, \(f(c)=g(c)\): os gráficos intersetam-se num ponto de abcissa em \(\left]0,\,2\right[\).
\(k=1\)
(Neste caso a interseção é mesmo em \(x=1\), pois \(f(1)=e^{0}=1\) e \(g(1)=1^{2}=1\).)
4. Ponto do gráfico na bissetriz dos quadrantes pares
Seja \(f\) uma função contínua de domínio \(\left[0,\,1\right]\) e contradomínio \(\left[-1,\,0\right]\).
Mostre que existe pelo menos um ponto do gráfico de \(f\) que pertence à bissetriz dos quadrantes pares.
A bissetriz dos quadrantes pares (o 2.º e o 4.º) é a reta de equação \(y=-x\). Um ponto \(\left(x,\,f(x)\right)\) do gráfico pertence-lhe se e só se:
Define-se então a função auxiliar
e procura-se um zero de \(h\).
Passo 2 — continuidade\(h\) é a soma de \(f\), contínua em \(\left[0,\,1\right]\) por hipótese, com a função polinomial \(x\), contínua. Logo \(h\) é contínua em \(\left[0,\,1\right]\).
Passo 3 — usar o contradomínioDizer que o contradomínio é \(\left[-1,\,0\right]\) significa, em particular, que
Aplicando isto aos extremos do intervalo:
Tem-se \(h(0)\le 0\le h(1)\), ou seja, \(0\) é um valor compreendido entre \(h(0)\) e \(h(1)\). Há dois casos:
- se \(h(0)=0\) ou \(h(1)=0\), o zero é logo \(x=0\) ou \(x=1\);
- caso contrário, \(h(0)\lt 0\lt h(1)\) e o teorema dos valores intermédios garante um \(c\in\left]0,\,1\right[\) com \(h(c)=0\).
Em qualquer dos casos existe \(c\in\left[0,\,1\right]\) tal que \(h(c)=0\), isto é, \(f(c)=-c\).
O ponto \(\left(c,\,f(c)\right)=\left(c,\,-c\right)\) pertence ao gráfico de \(f\) e à reta \(y=-x\), a bissetriz dos quadrantes pares. \(\blacksquare\)
Onde entrou cada hipótese: a continuidade permite aplicar o teorema; o domínio \(\left[0,\,1\right]\) dá os extremos onde se calcula \(h\); o contradomínio \(\left[-1,\,0\right]\) é o que garante \(f(0)\le 0\) e \(f(1)\ge -1\), isto é, os sinais de \(h(0)\) e \(h(1)\).
5. Valores de um parâmetro que garantem um zero
Seja \(f\) a função, de domínio \(\mathbb{R}\), definida, para determinado valor de \(a\), por:
Determine o conjunto de valores de \(a\) que lhe permitem garantir, pelo teorema de Bolzano-Cauchy, que a função \(f\) admite pelo menos um zero no intervalo \(\left]0,\,1\right[\).
Qualquer que seja \(a\), \(f\) é uma função polinomial, logo contínua em \(\mathbb{R}\) e, em particular, em \(\left[0,\,1\right]\). A continuidade nunca é aqui o problema.
Passo 2 — a condição do corolárioPara o teorema garantir um zero em \(\left]0,\,1\right[\), basta que \(f(0)\) e \(f(1)\) tenham sinais contrários:
O produto \(a(a-1)\) é positivo fora das raízes \(0\) e \(1\):
| \(a\) | \(-\infty\) | \(0\) | \(1\) | \(+\infty\) | |||
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| \(a\) | \(-\) | \(0\) | \(+\) | \(+\) | \(+\) | ||
| \(a-1\) | \(-\) | \(-\) | \(-\) | \(0\) | \(+\) | ||
| \(a(a-1)\) | \(+\) | \(0\) | \(-\) | \(0\) | \(+\) |
Confirmação com dois exemplos:
\(a=2\): \(f(0)=-2\lt 0\) e \(f(1)=1\gt 0\) — há mudança de sinal. \(\checkmark\)
\(a=-1\): \(f(0)=1\gt 0\) e \(f(1)=-2\lt 0\) — há mudança de sinal. \(\checkmark\)
\(a=\dfrac12\) (fora do conjunto): \(f(0)=-\dfrac12\) e \(f(1)=-\dfrac12\), ambos negativos — o teorema não garante nada. Repare-se que isto não significa que não haja zero; significa apenas que este teorema não o assegura.
6. Triângulo retângulo inscrito num gráfico
Na figura está representada, em referencial o. n. \(Oxy\), parte do gráfico da função \(f\), de domínio \(\mathbb{R}^{+}\), definida por \(f(x)=2x\ln x\).
Sabe-se que:
- \(B\) é o ponto de interseção do gráfico de \(f\) com o eixo \(Ox\);
- \(A\) é um ponto de abcissa \(x\) que pertence ao gráfico de \(f\).
Mostre que existe pelo menos um valor de \(x\) pertencente ao intervalo \(\left]0{,}5\ ;\ 0{,}9\right[\) para o qual o triângulo \([OAB]\) é retângulo em \(A\).
O vértice \(O\) é a origem: \(O=(0,\,0)\).
\(B\) é a interseção do gráfico com \(Ox\), ou seja, o zero de \(f\). Como \(x\gt 0\), tem-se \(2x\ne 0\):
E, sendo \(A\) o ponto do gráfico de abcissa \(x\):
O triângulo é retângulo em \(A\) quando os lados \([AO]\) e \([AB]\) são perpendiculares, isto é, quando o produto dos declives das retas \(AO\) e \(AB\) é \(-1\).
(ambos existem, porque em \(\left]0{,}5\ ;\ 0{,}9\right[\) se tem \(x\ne 0\) e \(x\ne 1\)).
Passo 3 — a equação a resolverBasta então mostrar que a função
tem pelo menos um zero em \(\left]0{,}5\ ;\ 0{,}9\right[\).
Passo 4 — continuidade\(d\) é soma e produto de funções contínuas em \(\mathbb{R}^{+}\) (polinomiais e o logaritmo), logo é contínua em \(\mathbb{R}^{+}\) e, em particular, em \(\left[0{,}5\ ;\ 0{,}9\right]\), que está contido em \(\mathbb{R}^{+}\).
Passo 5 — os valores nos extremosSendo \(d\) contínua em \(\left[0{,}5\ ;\ 0{,}9\right]\) e tendo \(d(0{,}5)\) e \(d(0{,}9)\) sinais contrários, o corolário do teorema dos valores intermédios garante que existe \(c\in\left]0{,}5\ ;\ 0{,}9\right[\) tal que \(d(c)=0\).
Para esse valor \(c\) tem-se \(m_{AO}\times m_{AB}=-1\), ou seja, o triângulo \([OAB]\) é retângulo em \(A\). \(\blacksquare\)
(Com a calculadora, \(c\approx 0{,}75\).)
De outro modo, com o produto escalar: o ângulo em \(A\) é reto quando \(\vec{AO}\cdot\vec{AB}=0\). Sendo \(\vec{AO}=\left(-x,\,-2x\ln x\right)\) e \(\vec{AB}=\left(1-x,\,-2x\ln x\right)\):
\(\vec{AO}\cdot\vec{AB}=-x(1-x)+4x^{2}\ln^{2}x=x\left(4x\ln^{2}x+x-1\right)\)
Como \(x\gt 0\), anular este produto é o mesmo que anular \(d(x)\) — chega-se exatamente à mesma equação.
Porquê excluir \(x=1\): a equação \(d(x)=0\) também é verificada por \(x=1\), mas aí \(A=B=(1,\,0)\) e não há triângulo nenhum. É por isso que o enunciado trabalha num intervalo que não contém o \(1\).